O Brasil fala da Amazônia como se ela fosse uma ideia. Um símbolo, uma floresta, um pulmão. Mas a Amazônia não é um conceito. É uma realidade — com gente dentro. Gente que nasce, trabalha, adoece, sonha, cria filhos e espera por um país que ainda não a reconhece por inteiro.
É comum ver brasileiros que conhecem os parques de Orlando ou as ruas de Paris, mas jamais pisaram numa cidade ribeirinha. Ignoram o que é viver onde o rio é estrada e a voadeira é ambulância. Desconhecem a força de um povo que constrói seu cotidiano entre cheias e vazantes, conectando cultura, resiliência e pertencimento com o que tem à mão.
A verdade é que o Amazonas continua distante do centro das decisões. Em parte, porque é mesmo longe. Em parte, porque ainda é mal compreendido. Por aqui, não há rodovia que leve ao interior em três horas. O que há são dias de viagem, logística frágil, e uma rede de saúde que depende de avião, internet via satélite e fé.
Mas não somos exceção — somos parte essencial do Brasil. O mesmo país que desenvolve soluções para o semiárido nordestino ou para os pampas do sul, precisa com a mesma urgência, investir em políticas sob medida para a Amazônia. E isso só acontecerá quando houver disposição real de entender nossas especificidades.
É preciso parar de olhar para cá com filtros de laboratório. A floresta está de pé — e isso não é obra do acaso. É resultado de um modo de vida que une saber tradicional, economia baseada em respeito ao meio ambiente e um modelo industrial que, apesar das críticas, gera emprego formal onde o Estado brasileiro muitas vezes nem chega.
Se há uma região que exige soluções criativas, pactuação federativa e políticas de longo prazo, é a nossa. E quem vive aqui já deu provas suficientes de que não quer assistencialismo — quer estrutura. Não espera milagres — espera presença. Não busca privilégio — busca equidade.
Falo isso com propriedade. Nasci na zona sul de Manaus, fui aluno da rede pública, trabalhei como industriário e percorri, como advogado e servidor público, os bastidores do Estado. Conheço essa terra com os pés, não com drones. E posso afirmar: a Amazônia tem tudo para ser o elo mais forte entre o Brasil e o futuro. Mas precisa ser vista, escutada e incluída.
E mais que isso: precisa ser representada por quem a conhece de verdade, gente que entende suas limitações, suas urgências e suas potências. Vozes que não falam por cima — falam por dentro. Vozes que não apenas denunciam a ausência do Estado, mas apontam caminhos para que ele esteja onde nunca esteve.
Enquanto continuarem tomando decisões sobre nós sem falar conosco, o país seguirá incompleto. A Amazônia não é cenário de filme estrangeiro — é chão de gente brasileira. E o que se constrói aqui, todos os dias, merece atenção não pela sua beleza, mas pela sua relevância.
O Brasil só será inteiro quando enxergar o Amazonas como parte do seu centro, e não como uma borda verde em seus mapas mentais. Quando esse dia chegar, a voz da Amazônia — firme, legítima, protagonista — não precisará mais gritar para ser ouvida. Ela simplesmente ecoará. E será impossível ignorá-la.